Plano de Desprescrição

Calendário de redução gradual, personalizado para o paciente

1 Identificação do Plano

Metodologia e Referências

Esta ferramenta ajuda o profissional e o paciente no processo de desprescrição. É baseada em recomendações já publicadas em diretrizes e as transforma em um plano de redução gradual da dose, com um calendário que pode ser ajustado para cada paciente e impresso em linguagem simples.

Fundamentos

Desprescrever é reduzir ou suspender um medicamento de forma planejada e acompanhada, quando ele já não traz benefício ou quando o risco passou a superar o ganho, sempre preservando a qualidade de vida. Alguns cuidados valem para qualquer classe. Antes de começar, confirme se o paciente realmente toma o remédio como foi prescrito. Depois de uso prolongado, a retirada nunca deve ser brusca. Se aparecerem sintomas de abstinência, mantém-se a dose por uma a duas semanas antes de voltar a reduzir, agora mais devagar, e nos casos mais intensos retoma-se a última dose que foi bem tolerada. A redução pode ser feita de duas formas: diminuindo a dose em miligramas ou, quando o comprimido não pode ser partido, espaçando as tomadas.

Esquemas de redução por classe

Classe Como reduzir
Benzodiazepínicos e indutores do sono (zolpidem)Reduzir cerca de 25% a cada uma ou duas semanas; na reta final, cerca de 12,5%. Nos de meia-vida curta, dose menor todos os dias, sem pular dias
AntipsicóticosReduzir de 25% a 50% a cada uma ou duas semanas, até suspender
Inibidores da bomba de prótonsReduzir espaçando as tomadas; reavaliar a cada quatro a oito semanas
OpioidesReduzir de 10% a 25% por mês (uso prolongado) ou por semana (uso recente)
Gabapentinoides (pregabalina e gabapentina)Reduzir ao longo de uma a duas semanas; quatro a oito semanas se uso prolongado ou dose alta
Corticoides oraisEm duas fases: redução mais rápida até cerca de 5 mg de prednisona por dia e, depois, cerca de 1 mg por mês
AntidepressivosReduzir de 10% a 25% a cada uma a quatro semanas, com cortes cada vez menores nas doses mais baixas. Nos de meia-vida curta, dose menor todos os dias, sem pular dias (exceção: fluoxetina)

Como a ferramenta foi construída

Seleção de fontes e revisão. A ferramenta nasceu de uma revisão narrativa de diretrizes, manuais e materiais de desprescrição usados na prática clínica, com prioridade para os documentos de referência de cada classe de medicamento. Não foi uma revisão sistemática nem um consenso formal de especialistas. A escolha e a leitura das fontes foram feitas pelo autor segundo a relevância clínica, e as referências de cada classe estão listadas adiante.

Adaptação dos esquemas por fármaco. Para cada medicamento, o ritmo e o tamanho da redução partem do que é recomendado para a sua classe, mostrado na tabela acima, e são convertidos em passos concretos. Esses passos levam em conta a forma farmacêutica, se o comprimido pode ser partido e quais apresentações existem no Brasil. Sempre que possível, cada passo é descrito como uma fração da dose (¼, ½ ou ¾ do comprimido), reduzindo aos poucos até a menor apresentação.

Fontes das apresentações farmacêuticas. As formas e concentrações disponíveis no Brasil foram verificadas na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME 2024) e nas bulas dos fabricantes, consultadas no bulário eletrônico da Anvisa. Das bulas também vieram as características físicas que definem o manuseio de cada apresentação, como a presença de sulco, a possibilidade de partir o comprimido e a validade do comprimido partido.

Dose todos os dias, e não "pular dias". Seguindo as Maudsley Deprescribing Guidelines (2024), para medicamentos psicotrópicos de meia-vida curta (menos de cerca de 24 horas) a redução é feita tomando uma dose menor todos os dias, e não tomando a dose em dias alternados: pular dias faz o nível do remédio no sangue oscilar e pode provocar sintomas de retirada. As exceções são os fármacos de meia-vida longa (como fluoxetina e diazepam), em que o espaçamento é seguro, e os inibidores da bomba de prótons, em que o rebote é de acidez e não de abstinência. Quando não existe comprimido menor, a ferramenta indica alternativas práticas, em ordem de preferência: partir o comprimido (quando possível), prescrever o medicamento manipulado na dose desejada (venlafaxina e duloxetina) e, por fim, dissolver o comprimido em água e tomar uma parte, método descrito no Maudsley (off-label) e reservado para quando não dá para partir nem manipular. Nas doses mais baixas, o ideal é terminar com doses pequenas antes de suspender de vez, porque o último degrau é o que produz, proporcionalmente, a maior queda de efeito nos receptores.

Nota de manuseio do medicamento. Nos fármacos que exigem manejo especial da forma farmacêutica, a ferramenta exibe, logo após a escolha da apresentação farmacêutica, uma nota curta de manuseio específica daquela apresentação: o que ela permite ou proíbe (partir, abrir, triturar, dissolver) e o que isso implica no desenho do esquema, como o uso de cápsula manipulada ou de dias alternados. As informações vêm da bula do fabricante e de tabelas de administração de medicamentos por sonda enteral. As instruções de como obter cada dose (frações, combinações, cápsulas manipuladas ou trituração/diluição em água, na ordem de preferência partir → manipular → triturar/diluir, com métodos off-label baseados no Maudsley Deprescribing Guidelines 2024) aparecem diretamente nas etapas e no calendário do plano; quando há dois métodos possíveis, a escolha é feita no seletor "Como obter as doses menores".

Lacunas e conflitos entre fontes. Quando as fontes não concordavam entre si, foi escolhido o esquema mais lento e cauteloso e a diretriz mais específica para aquela classe. Onde nenhuma fonte orientava uma apresentação em particular, os passos foram montados por semelhança com o esquema da classe e com as apresentações disponíveis.

Limitações e cuidados. Por ser apenas um apoio à decisão, os esquemas não dispensam o julgamento clínico, a avaliação de cada paciente, o acompanhamento dos sintomas de retirada e a decisão tomada em conjunto com ele. A ferramenta também não substitui protocolos locais e não deve ser aplicada de forma automática em situações de maior risco.

Referências

Princípios gerais e desprescrição

  • Horowitz MA, Taylor D. The Maudsley® Deprescribing Guidelines: Antidepressants, Benzodiazepines, Gabapentinoids and Z-drugs. Hoboken: Wiley Blackwell; 2024.
  • 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria® Update Expert Panel. AGS 2023 updated Beers Criteria. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-81.
  • O'Mahony D, et al. STOPP/START criteria for potentially inappropriate prescribing in older people: version 3. Eur Geriatr Med. 2023;14(4):625-32.
  • Goldberg JF, et al. Recommendations for the deprescribing of psychotropic medications: a consensus statement from the ASCP Task Force. JAMA Netw Open. 2026;9(2):e260043.
  • Eserian JK, et al. Current strategies for tapering psychiatric drugs. Psychiatry Res. 2023;329:115537.
  • Turner JP, Richard C, Lussier MT, et al. Deprescribing conversations: a closer look at prescriber–patient communication. Ther Adv Drug Saf. 2018;9(12):687-98.

Benzodiazepínicos e indutores do sono

  • Primary Health Tasmania. A guide to deprescribing benzodiazepines. Hobart; 2019.
  • Tannenbaum C. You may be at risk: sleeping pills and anti-anxiety medications [folheto EMPOWER]. CMADN; 2014 (rev. 2024).

Antipsicóticos

  • Bjerre LM, Farrell B, Hogel M, et al. Deprescribing antipsychotics for behavioural and psychological symptoms of dementia and insomnia: evidence-based clinical practice guideline. Can Fam Physician. 2018;64(1):17-27.
  • Primary Health Tasmania. A guide to deprescribing antipsychotics. Hobart; 2019.
  • Tannenbaum C. You may be at risk: antipsychotics [folheto EMPOWER]. CMADN; 2014 (rev. 2018).

Antidepressivos

  • Zwiebel SJ, Viguera AC. Discontinuing antidepressants: pearls and pitfalls. Cleve Clin J Med. 2022;89(1):18-26.
  • Henssler J, Heinz A, Brandt L, Bschor T. Antidepressant withdrawal and rebound phenomena: a systematic review. Dtsch Arztebl Int. 2019;116(20):355-61.

Opioides

  • Primary Health Tasmania. A guide to deprescribing opioids. Hobart; 2019.
  • Dowell D, Ragan KR, Jones CM, Baldwin GT, Chou R. CDC Clinical Practice Guideline for Prescribing Opioids for Pain, United States, 2022. MMWR Recomm Rep. 2022;71(3):1-95.
  • Lin CWC, Langford AV. Opioid deprescribing in patients with noncancer pain. N Engl J Med. 2025;393(18):1833-42.

Gabapentinoides

  • Primary Health Tasmania. A guide to deprescribing gabapentinoids. Hobart; 2021.
  • Tannenbaum C. You may be at risk: gabapentinoids [folheto EMPOWER]. Canadian Medication Appropriateness and Deprescribing Network; 2020.

Inibidores da bomba de prótons

  • Primary Health Tasmania. A guide to deprescribing proton pump inhibitors. Hobart; 2019.
  • Tannenbaum C. You may be at risk: stomach pills for acid reflux (PPIs) [folheto EMPOWER]. CMADN; 2014 (rev. 2018).

Corticoides orais

  • Beuschlein F, et al. ESE and Endocrine Society Joint Clinical Guideline: diagnosis and therapy of glucocorticoid-induced adrenal insufficiency. Eur J Endocrinol. 2024;190(5):G25-G51.

Autoria e transparência

Felipe Mota Rezende | Médico de Família e Comunidade · CRM-GO 21.566 · RQE 14.136

Contato: felipemrez@gmail.com

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Termos de Uso

1. Natureza e finalidade. Esta é uma ferramenta de apoio à decisão clínica, de caráter educacional e informativo, destinada exclusivamente a profissionais de saúde habilitados a prescrever. Ela não fornece aconselhamento médico a pacientes, não estabelece relação médico-paciente e não substitui o julgamento clínico, a avaliação individual de cada caso nem a consulta presencial. As recomendações geradas devem ser entendidas como ponto de partida a ser revisado e ajustado pelo prescritor.

2. Responsabilidade profissional. Os esquemas de redução são exemplos construídos a partir das diretrizes e fontes listadas na Metodologia. A decisão de desprescrever, a escolha de doses, o ritmo da redução, a monitorização dos sintomas de retirada e a conduta diante de intercorrências são de responsabilidade exclusiva do profissional que assiste o paciente. Antes de prescrever, confira sempre a bula, as doses, as apresentações disponíveis e as interações. Alguns métodos descritos (partição de comprimidos, trituração e diluição, abertura de cápsulas e manipulação magistral) são usos fora da bula (off-label) e exigem avaliação caso a caso.

3. Limitações e ausência de garantias. O conteúdo é fornecido "como está", sem garantia de exatidão, completude, atualidade ou adequação a um caso específico. Apresentações comerciais, bulas e diretrizes mudam com o tempo e podem tornar partes do conteúdo desatualizadas. O autor e os colaboradores não se responsabilizam por quaisquer danos, diretos ou indiretos, decorrentes do uso ou da impossibilidade de uso desta ferramenta.

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